19/06/2006 11:42
A dança da vida.
Segundo Alcino Ferreira e Clemente Lizana, educadores populares da Equipe Habeas Corpus de Recife: Os nossos corpos são portadores, por assim dizer, de feridas e de cicatrizes imprimidas pela organização do universo político e pela repressão social.
Já Frei Betto em artigo de sua autoria intitulado corpo cósmico afirma Esse corpo que somos dorme e sonha, sofre e goza, sabe-se feliz ou contrai-se em tristeza, esbanja saúde ou fragiliza-se na doença. Sobretudo, é capaz de algo inacessível a todos os outros animais: sorrir . E, no entanto, ainda vivemos num mundo submerso em lágrimas. Porque esse corpo, provido de sentimentos e emoções, guarda rancores, iras e ódios, embora tão capaz de compaixão, ternura e amor.
Toda esta reflexão, se colocada durante as décadas de 60 e 70 como ponto de partida, para discussão de um projeto coletivo junto a pessoas e grupos que, atuam junto a movimentos populares, ONGs e grupos religiosos, seria no mínimo estranho, ou acusada de estar querendo desviar o potencial de mobilização das massas, como a maioria das lideranças daquela época não percebeu a importância de valorização dos aspectos ligados a cultura, ao corpo, a mística e a subjetividade, algumas reações vieram a tona, como: o cansaço, a perda do sentido do projeto político, o martírio do corpo no exercício da militância que traria no amanhecer, a revolução.
Já no momento atual, constata-se a partir da contribuição de pensadores engajados , principalmente aqueles ligados aos estudos da filosofia, das tradições religiosas e da psicologia que, um dos principais problemas que impedem a construção de homens e mulheres novos e uma efetiva mudança das estruturas sociais, é exatamente esta visão fragmentada, dividida e separada das questões que nos dizem respeito, tanto em termos do ser individual, como do ser coletivo.
Urge, parafraseando Proust: buscarmos a unidade perdida, afinal dividimos o mundo em territórios. Quebramos a unidade do conhecimento e do ser. Para os cientistas, damos a natureza; aos filósofos, a mente; para os artistas o belo; aos teólogos, a alma. A própria ciência foi fragmentada de tal forma que, por falta de aproximação e entendimento de profissionais dos ramos diversos, muitos projetos fracassam(ram) com possibilidade inclusive de, comprometer a sobrevivência das espécies e do próprio planeta.
Com o objetivo de possibilitar a colagem das partes, diversos filósofos, cientistas, teólogos, psicólogos, artistas e educadores estão buscando no resgate da tradição em diálogo com as descobertas e insights atuais, algumas saídas para a crise individual, social e planetária que aflige a todos nós no inicio deste novo século.
Um destes nomes é o de Bernhard Wosien, bailarino e coreógrafo alemão que, inspirado pelo imenso potencial das danças folclóricas, e após intensa pesquisa baseada principalmente na tradição alemã, criou em 1976 um movimento intitulado Danças Circulares Sagradas, que nasceu na comunidade religiosa de Findhorn, no norte da Escócia.
O resgate dessas danças representa, uma retomada de antigas formas de expressão de diferentes povos e culturas, acrescidas de novas criações, coreografias, ritmos e significações próprias do homem inserido na realidade atual.
O movimento de danças circulares também chegou ao Brasil. Em 1999 e 2000 participei de duas oficinas em Recife(Pe), e em 2003 de um curso de formação com William Valle, aqui em Aracaju, onde a receptividade entusiasta e o interesse demonstrado por terapeutas e educadores populares, garantiram a permanência de um grupo de pessoas que, se reúnem quinzenalmente em Recife, Olinda, Aracaju e outras cidades nordestinas para a consolidação do aprendizado. Muitos destes participantes buscam enfrentar os problemas, de comportamento que freiam o avanço dos processos coletivos, decorrentes do:
Individualismo,
Da concorrência,
Da vontade de dominar os outros ou da subserviência,
Da intolerância perante as colocações alheias,
Da falta de confiança nas capacidades próprias,
Da desconfiança nos outros,
Do acanhamento,
Da falta de vitalidade e da passividade,
Da incapacidade de se concentrar.
Como já sabemos, estas condutas são provocadas e incentivadas, de mil maneiras, para garantir a reprodução do atual modelo sóciopolítico-econômico injusto e excludente.
José de Oliveira Santos Zezito Professor de Historia e diretor-presidente da ONG Ação Cultural. zezito2002@ig.com.br
enviada por Zezito
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